Beethoven: Um novo caminho

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[Beethoven – um dos três “bês” gigantes da música, ao lado de Bach e de Brahms. Poderia a nossa história pessoal de vida também orientar a busca de novos caminhos?]

Pouco depois de 1800, Ludwig van Beethoven revelou a um amigo, músico como ele: “Não estou satisfeito com o trabalho que realizei até aqui. A partir de agora, procurarei um novo caminho.”

Essa afirmação é notável, em vista do que o compositor já havia realizado. Ainda jovem (completara 30 anos na virada do século), tinha a seu crédito dois excelentes concertos para piano, uma sinfonia muito admirada e uma quantidade crescente de obras para teclado, canções e composições para música de câmara. Isso havia suscitado considerável agitação entre os músicos e a aristocracia amante de música em Viena, e Beethoven viu que falavam dele como herdeiro de Mozart e Hayden.

Esse veredicto reflete não apenas a qualidade dos primeiros trabalhos, mas também sua estreita adesão ao estilo dos mestres do Classicismo. Tendo avaliado e igualado o progresso deles, o jovem compositor poderia facilmente continuar a seguir a mesma trilha. Mas Beethoven estava de fato sendo sincero acerca de “um novo caminho”. Logo suas composições começaram a revelar um ímpeto musical de maior inquietude – idéias temáticas mais vigorosas, harmonias mais arrojadas – e uma ampla escala de invenção musical. Obras como a Segunda Sinfonia e o Terceiro Concerto para Piano, embora sigam firmemente a tradição clássica, parecem estar forçando os limites das formas e dos estilos estabelecidos.

Com sua Terceira Sinfonia (Heróica), de 1803/4, chegou definitivamente a um novo caminho. Essa obra não trouxe tanto um rompimento com as formas e a linguagem musicais do século 19, mas uma enorme expansão delas. A Heróica ainda foi identificada como uma sinfonia, porém uma sinfonia mais incitante em seu drama, de proporções mais épicas e mais romântica em espírito do que qualquer outra concebida antes.

A ruptura da Heróica pareceu desencadear nele um fluxo de energia para compor. Em rápida sucessão, produziu uma série de obras-primas, a mais importante das quais trouxe ao concerto, à sonata para piano e ao quarteto de cordas certo desenvolvimento de idéias temáticas, a rica paleta harmônica, o senso ampliado de forma e, talvez o principal, o espírito dinâmico que havia caracterizado aquela sinfonia. Essa tremenda efusão atingiu um tom de exaltação em 1806, ano que assistiu à criação da Quarta Sinfonia e boa parte da Quinta, dos três Quartetos Razumovsky para Cordas, do Quarto Concerto para piano e do Concerto para Violino em Ré, Op. 61.

Compôs esta última obra para Franz Clement, violinista principal da orquestra do Teatro de Viena, que a executou em 1806. Virtuose excepcional, Clement era um dos músicos mais respeitados da capital austríaca. Conta-se que Beethoven teria terminado o concerto quase na hora da apresentação e que Clement, surpreendentemente, tocou parte do solo à primeira vista (os violinistas que têm enfrentado as dificuldades desse trecho do concerto se apressam em confessar sua admiração).

No entanto, o Concerto para Violino não é uma peça para exibição de um virtuose, nem uma composição ocasional produzida para obsequiar um artista famoso. A música indica um alto grau de inspiração, tanto quanto o empenho considerável que prodigalizava a suas obras-primas. O compositor gostou tanto desse concerto que reescreveu a parte de solo para piano, para que fosse tocada por seus alunos e amigos pianistas.

Além disso, o Concerto para Violino é uma das mais soberbas realizações do novo caminho do compositor. Ele ocupa um posto em relação aos concertos para violino de Mozart similar ao da Heróica diante das sinfonias de Hayden – isto é, descende claramente de seus predecessores clássicos, mas os ultrapassa em alcance. Como ocorria com muitas de suas obras, a partitura revela novas possibilidades e estabelece novos padrões para composições desse tipo. Foi a primeira na linha dos grandes concertos para violino do século 19. Os de Mendelssohn, Bruch e Brahms lhe são devedores, mas não se pode dizer que alguém o tenha ultrapassado em beleza e majestade.

(CD Beethoven II.Grandes Compositores, Texto publicado como Encarte. Abril, 1996. p. 5-7)

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