O professor de Bill Gates

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Stephen Kanitz (Veja, 24/6/1998, p. 21)

Esta história é meio lenda meio fato, mas merece ser contada como se fosse real.

Quando Bill Gates estudava em Havard, ele tinha um professor de Matemática fantástico e muito exigente. Tanto isso é verdade que Bill Gates se classificou em 18º lugar num teste nacional de Matemática. Esse professor dava uma prova final dificílima, e poucos alunos conseguiam acertar todas as questões.

“Se alguém conseguir acertar completamente esta prova, eu renunciarei a meu cargo de professor de Matemática e trabalharei para ele”, dizia o professor com total seriedade.

Em inglês essa frase soa bem mais forte, tipo “eu serei seu subordinado para sempre”, uma forma simpática de dizer que se aceita a derrota e que finalmente se encontrou alguém superior.

Bill Gates foi o aluno que mais próximo chegou de encontrar todas as soluções, tendo errado uma questão, somente no finalzinho da dedução.

Passados vinte anos, se alguém for a Boston poderá encontrar o tal professor batendo a cabeça na parede de Havard Square, balbuciando: “Por que eu fui tão rígido? Por que eu fui tão rígido?” Tivesse sido menos rigoroso, o agora anônimo professor seria hoje, provavelmente,o segundo homem mais rico do mundo. O interessante dessa história é o fato de que alunos de Havard ouvem de seus professores o seguinte conselho: “Se um dia você encontrar alguém, um colega ou um subordinado, mais competente que você, faça dele seu chefe e suba na vida com ele”.

No Brasil, um colega de trabalho que comece a despontar é imediatamente tachado de picareta, enganador e puxa-saco. Em vez fazê-lo chefe, começa um lento e certeiro boicote ao talento. Nossa mania de boicotar chefes lembra a mentalidade do “Se hay gobierno soy contra”. Nessas condições, equipes dificilmente conseguem ser formadas no Brasil, e temos um excesso de primas-donas, donos da verdade, sem nenhuma equipe para colocar as idéias em prática. Se não aprendermos a escolher os nossos chefes imediatos, como iremos escolher deputados, governadores e presidentes da República?

Milhares de jovens acreditam ingenuamente que, apesar de ter cabulado a maioria das aulas, quando adultos encontrarão pessoas inteligentes que suprirão o que não aprenderam. Ledo engano, pessoas inteligentes são as primeiras a procurar parceiros competentes para trabalhar. Melhor do que procurar as melhores empresas para trabalhar é procurar os melhores chefes e trocar de emprego quantas vezes seu chefe trocar o dele. Como fizeram as dezenas de programadores que decidiram trabalhar para a Microsoft, na época em que ela era dirigida por um fedelho de 19 anos totalmente desconhecido.

Aceitar um bom chefe não é fácil. Temos muito mais informações sobre empresas do que sobre pessoas com capacidade de liderança. Mas, na próxima vez em que encontrar um amigo para saber se o emprego dele paga bem, pergunte quem são os bons chefes e líderes da empresa em que ele trabalha. É muito melhor promover um subordinado a seu chefe, se ele for claramente mais competente que você, do que ficar atravancando a carreira dele e a sua.

Subordinar-se a um chefe competente não é sinal de submissão nem de servilismo, mas uma das melhores coisas que você pode fazer pela sua carreira. Embora ser o número 1 de uma organização seja o sonho de muitos jovens, a realidade é que 95% de sua carreira será desenrolada como o número 2 de algum cargo.

A pior decisão na vida do professor de Bill Gates foi a de não seguir o seu próprio conselho. Portanto, fique de olho nos seus colegas de trabalho e faculdade que parecem ser brilhantes e tente trabalhar com eles no futuro.

Eles poderão ser o caminho para o seu sucesso.


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